Sábado, Outubro 02, 2004

 

Série Natureza Urbana - A Primavera*

É primavera, e há mais vestidos floridos nas ruas do que flores. Há um ligeiro rosear na tez das meninas mais branquinhas. Há mais bicicletas circulando, e também há mais crianças descalças. Sorrisos voltam a figurar nos rostos de gente que se imaginara carrancuda. É primavera e, apesar da poluição, o ar está mais fresco.
As mulheres têm mais desejo e os homens estão mais dispostos. O trabalho continua o mesmo, mas se acorda menos cansado. Anda-se mais a pé quando é primavera. As árvores voltam a tomar postura ereta e suas copas estão mais frondosas. Os velhinhos sorriem mais e os mais jovens parecem-se ainda mais jovens. Assiste-se menos à televisão.
Quem fumava muitos cigarros por dia diminui pela metade o consumo. Os bares estão mais cheios e os cinemas, mais vazios. Nos shoppings, há mais gente passeando e menos gente comprando. As brigas de trânsito são menos recorrentes nessa época. Não se vira a cara quando chega a primavera.
Lê-se mais Vinícius de Moraes e menos Rilke. Lê-se mais poesia e menos notícias. A brisa sopra leve e acaricia os rostos dos mais gentis. Grandes edifícios ficam menores e há menos gente querendo se jogar deles. Nos aparelhos de som, há mais bossa nova e menos roque.
É primavera, e a guerra no Iraque continua, os juros sobem, doenças letais são descobertas, o império americano declina, casais brigam, pessoas tropeçam... Mas é tempo de olhar o mundo com mais esperança.

*Reacende a velha chama em André Kameda.

Domingo, Setembro 12, 2004

 

Série Natureza Urbana - O Vento*

É o vento gelado que faz as pessoas permanecerem em casa. Mas não é o vento que, de fato, se sente. É o vento que se vê ou apenas se ouve. Aquele que vemos desfolhar as árvores e balançar os fios elétricos dos postes. Aquele que vemos mover pesadas nuvens de chuva. Aquele cujo assovio mistura-se aos sons das moto-serras e britadeiras.
Não sei porque me atrevo a escrever. Disponho de parco material para a poesia e de menos ainda para a prosa; não tenho potencial nem talento; não tenho pretensões e muito menos disposição. Aliás, presunção parece ser a melhor palavra para descrever este momento, ou melhor, esta vida. Porque, afinal, não há vontade para se fazer muita coisa quando se descobre que a felicidade é uma ilusão. É isso: ilusão bem poderia ser sinônimo de felicidade: em vez de dizer estou feliz, diríamos estou iludido. Ah, mas é tão mais fácil o pessimismo. Mas devo dizer que não foi pela facilidade que o escolhi. Pelo contrário, ele me escolheu, é como que um destino. (Na mente ecoam algumas reminiscências, faíscas de algumas fundas lembranças: "ser gauche na vida", "eu tomo tristeza", "nunca conheci quem tivesse levado porrada").
O vento lá fora continua soprando. Parece-se com um blues. Com um lamento de nêga escrava cantando o seu sofrimento e de seus ancestrais. Oxalá nos proteja desse vento que traz más notícias. Talvez ela tenha pensado isso. Talvez não, porque a vida inteira ela só soube de má notícia. Ah, como me mete medo essa nêga. Ela não pára de me olhar. A alvura de seus grandes olhos é o que mais me amedronta - de certo modo, também fascina. Eles estão crescendo, crescendo, ah, não!, agora é impossível, eles vão explodir, não, vão implodir... Ah, como eu poderia me enganar, isto não são olhos, é o coração. Como é inusual dizer: quem vê cara, vê coração. Estava na cara que era o coração. Ou era o coração que estava na cara? Agora não importa, porque, como o gelo que derrete, a imagem se desfez.
No entanto, o vento continua soprando. Continua perscrutando seu vário percurso, por entre vãos e desvãos, vendo desvairamentos virulentos de virgens de vinte e tantos anos; observando os servos servindo a seus senhores sem pestanejar; escutando a esposa escusar-se do ex-marido; tateando as intatas tetas da pueril prostituta; penetrando o poro impossível.
Esse vento, em suas errâncias no espaço-tempo, tudo vê e tudo sente. Depois sai, intratável e triunfante, consciente da tarefa-cumprida e de todo-caminho-percorrido. Por isso permaneço em casa: para rir do vento e zombar da sua aparente onipotência.

*André Kameda anunciará o Apocalipse.
 

Domingos*

Estes domingos... tão vazios e, no entanto, tão cheios de poesia. Os raios de sol são mais tímidos, como que anunciando o fim da semana. Um misto de preguiça e tristeza nos abate, ganhamos ares existencialistas, mas uma certa preocupação pragmática - segunda acordo às 7h, tenho uma reunião na terça e quarta saio com os amigos - também nos atinge.
É o fecho de um ciclo mas também não deixa de ser o começo de um outro. (Há preguiça até para escrever esta coisa aqui. Por isso deixo claro, isto que lês é apenas uma coleção de frases soltas sobre este dia da semana). É hora de recolher-se no quarto e ficar quieto, sem pensar em nada.

*André Kameda publica coisas antigas e gosta de Rubem Braga.
 

Tempos Modernos*

Nesta noite cansada, pensar sobre a escuridão das pessoas não faz muito sentido, já que é este espaço em branco o que realmente me assusta, e quando volto a mim percebo que duas linhas já se foram, a custo de nenhuma reflexão, mas afinal não é isso o que o mundo nos exige, rapidez nas coisas, é preciso ser rápido, mais rápido, pegue o bonde andando senão deus chronos nos devora, pronto!, estou dentro, mas o mundo vai passando diante de meus olhos, mimetizo agora a flanerie de Baudelaire e penso como foi possível em tempos tão antigos, não seríamos então todos loucos?, porque de repente dá uma vontade imensa de gritar, um grito pro mundo ouvir e botar no chão aquele do Münch, ah, esses expressionistas, esses sim eram loucos, cortavam orelhas e tudo e ainda se pintavam depois, deviam ter tomado ácido, penso, mas que nada, é apenas uma técnica, um jeito de dizer as coisas, assim como o que digo, ou melhor, o jeito que digo, é reflexo de meu tempo, tempos derradeiros, a derrocada de Apolo e enfim a vitória de Dionísio, deus que não sei por que me lembra de biscoitos, que remetem à madeilene proustiana que, por sua vez, lembra-me a infância, ah, a infância querida que os tempos não trazem mais, a moeda de dez centavos de cruzados que tilinta no chão de azulejos, o cheiro incomum da panela de pressão da vizinha - devia ser um feijão muito bom o dela, constato comigo mesmo - isso está tão arraigado em mim, isso sou eu!, isso sou eu!, então sinto vontade de pular, de pular alto, muito alto, mas aí talvez na volta eu não encontre um chão, imaginem que tragédia eu não encontrar um chão, então desisto e parto para uma outra, talvez um outro bonde trem metrô, sei lá, tanto faz, só não dá pra ficar parado, parar gera reflexão, que gera angústia e não quero sofrer, sofrer é para os fracos, sou discípulo de Epicuro, diversão levada a sério, se é que você me entende, ironia é o único modo de sair dessa roda de infortúnios a que chamam Vida, não, vida, com maiúscula me parece solene demais, e quando dou por mim já estou no bonde de São Januário, levando mais um otário pro trabalho, então penso que podia pegar o bonde da Esperança, mas ela não existe, só vem a ser, é um vir-a-ser infindável, só existe no porvir, ou será no devir?, não importa, são duas formas de se dizer a mesma coisa, voltemos àquilo que estávamos falando, não percamos o fio de Ariadne, ah, esses labirintos de palavrórios me lembram de Borges, escritor de muito talento, brilhante, me faz até desconfiar que embaixo de minha cama há um Aleph, de quando em vez dou uma olhada para ver se a máquina do mundo se entreabre...

*André Kameda vota na segunda opção.

Quinta-feira, Setembro 09, 2004

 

ESTÁ DECRETADO.

ELE VOLTOU, AGORA PRA FICAR!

Terça-feira, Setembro 07, 2004

 
Abandonado. Toatalmente deixado de lado. É assim que este blog está. Todos aqueles sonhos, devaneios de se retomar a comunidade bloguística do Black Blog original foram ao chão. Ninguém se interessou. Ninguém leu. Ninguém escreveu.
Mea culpa, mea maxima culpa. Também não escrevi nada, acho que é a segunda vez que entro neste blog.
Uma ressalva deve ser feita. O senhor Zaplana Portella foi o que mais militou neste espaço, embora eu ache que uma certa emissora de TV tenha lhe sugado todas as energias. Obrigado Klingah. Ressalva deve ser feita também ao Eugene, que deu o pouco de sangue que lhe restava nas veias para este modestos pixeis.


Agora peço a manifestação de todos.
Fechamos o bar agora ou ainda tentamos mais um pouquinho?
Eu voto na segunda proposta.

C. Quero

Sexta-feira, Agosto 13, 2004

 

Voltei só

Há muito tempo não passava por aqui. Pelo jeito, eu não fui o único... De qualquer forma, vou deixar umas poucas linhas, apenas para não passar em branco. Pode ser?

Não fiquei sem escrever à toa. Durante esses longos dois meses, andei pensando sobre os mais variados assuntos, mas não encontrei nada tão bom para preencher o glorioso espaço desse blog. Fiquei sabendo de novas pessoas que acessaram nossa página. Até entramos em uma lista de blogs favoritos de uma amiga (Valeu Amandita!!!). Quem diria.... o maisblackblog fazendo sucesso no universo virtual.

É impossível não falar da nova onda da Net. Infelizmente, ainda não é o nosso blog (por pouco tempo, eu espero). É obvio que estou falando do Orkut. A princípio, achei aquilo tudo uma babaquice. Relutei, recusei alguns convites, mas hoje sou o maior incentivador do negócio. Já ganhei umas cinco pessoas aqui do trabalho. A comunidade da emissora está crescendo a cada dia...

Mesmo sendo um dos maiores apreciadores do Orkut, ainda não descobri qual a verdadeira finalidade do negócio. Sei que é muito bom para o ego. Temos amigos, fãs, admiradores, pessoas que postam coisas engraçadas no profile.... Também serve para encontrar amigos distantes, pessoas que um dia passaram pelas nossas vidas, mas o tempo tratou de afasta-las. Isso é legal. Até aqueles com quem eu não falava muito, hoje são grandes companheiros de Orkut.

O problema é que a nova moda não agrada a todos. Aqui no trabalho o bicho foi bloqueado. Ninguém mais consegue acessar o www.orkut.com. Tentamos outras vias, mas também fomos bloqueados. A perseguição está brava. Mas eu não vou desistir!!!!

Só me resta, portanto, acessar o meu profile e conferir meus novos amigos da minha casa ou da faculdade (o que é mais provável, porque a minha casa, nesses últimos meses, tem sido apenas o lugar onde eu durmo nas poucas horas do dia que me restam).

Antes de terminar esse texto, que não diz nada a ninguém (nem a mim mesmo), quero tornar público o meu pedido de desculpas. Sabe como é, né... Todos nós estamos atolados de trabalho e a cabeça começou a ficar preocupada com outras coisas. Faltam tempo e idéias para rechearmos o conteúdo desse blog. Mas não desistam de acessa-lo. Prometo que ainda convenço o restante da lichaiada a voltar a postar por aqui.

Saudações santistas...

KPortella conseguiu cinco minutos de folga e lembrou de todos os companheiros que adoram acessar blogs alheios, como esse.


Segunda-feira, Julho 05, 2004

 

...

ATUALIZA!!! ATUALIZA!!! ATUALIZA!!!

Sábado, Maio 22, 2004

 
Independência

Sábado, começo de noite: se despediu do namorado, não iriam sair naquela noite. Comeu duas bolachas, um copo de suco em pó light sabor uva itália, passou no banheiro e foi para a cama. Mas não dormiu. Refletiu sobre um assunto que há muito dominava seus pensamentos. Fechou os olhos e sorriu.

Domingo, meio da tarde: Foi à casa da amiga entendida fazer uma produção. Saiu com unhas novas e um ousado corte de cabelo. Ria consigo mesma, satisfeita.

Segunda-feira, pela manhã: Pegou o ônibus que levava ao Centro. Desceu no ponto da antiga Catedral. Subiu a rua do Bosque, virou na segunda esquina. Entrou na casa onde a imobiliária funcionava.

Segunda, 80 minutos depois: Conferiu o nome da rua e a numeração. Chacoalhava o pequeno molho de chaves. Era ali mesmo. Olhou para o prédio acinzentado, apertou o botão do porteiro-eletrônico, ouviu o estalo e entrou. Antes hesitou, mas só um pouco.

Segunda, 13 horas: Assinou na linha tracejada. Ficaria apertado, mas estava decidida. O apartamento 12 tinha uma nova inquilina. Agora, tudo seria rápido.

Terça-feira, começo da tarde: Se matriculou na auto-escola. Já estava na hora. Em menos de seis meses não confundiria mais embreagem e acelerador. Não mandou e-mails naquela tarde.

Quarta-feira, umas 11 horas: Entrou na loja, rumou direto para o segundo piso. Não esperou pela lábia do vendedor. Mostrou o dinheiro e apontou a mercadoria. Saiu com um celular novo.

Quinta-feira, após o café-da-manhã com a mãe: Fazia frio, então andou rápido em direção ao ponto de ônibus. O celular com a bateria devidamente carregada. Enquanto lia o folheto de ofertas decidiu pelo guarda-roupas de cor marfim, banquetas coloridas, o fogão de quatro bocas da promoção e uma geladeira de 190 litros. Teria de combinar direito a entrega das mercadorias. Compraria também um colchão novo.

Sexta-feira: Pela manhã, foi à médica. À tarde, visitou a amiga, revisou as unhas e jogou minutos de conversa fora. À noite, jantou com o namorado, a mãe e a sogra. Riram bastante. O rapaz estranhou o novo celular, mas calou.

Sábado, 17h45: Desligou o telefone na cara do namorado. Foi para o quarto, abriu o gaveteiro, tirou calcinhas, meias e uma velha mala grande. Falou com a mãe. Quando terminaram, não havia mais o que dizer. Saiu sem olhar para trás.

Domingo, com os primeiros pássaros:Era um novo dia. Sorriu. Havia muito o que fazer, limpar, ajeitar e cuidar. Vida nova é assim. Leva um pouco de tempo até se ter costume. Inesperadamente, uma lágrima escorreu do olho esquerdo. Era necessário se adaptar, mas não temia. Abriu uma das vidraças e se sentou na banqueta verde. Tomou um copo de suco de laranja de caixinha e comeu dois pacotinhos individuais de biscoito crocante com um pouco de requeijão. Tudo estava muito mais gostoso. O sol brilhava mais por entre as janelas ainda descortinadas e uma brisa trouxe aquele ar de fescor.

Independência.

*Eugênio Augusto Brito, numa noite estranha de sábado, achou que este blog deveria ficar menos político.

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